A conversa que eu não preciso ter com você

Você chega, passa por mim, se esparrama no sofá. Eu só levanto o olho e uma parte da sobrancelha e continuo digitando. O que tem acontecido por causa do tal sistema Home Office é que eu nunca paro de trabalhar. Assim como todos os dias, você não me dá um beijo, nem um abraço e, se abre a boca, é para que escapem uma ou duas palavras. Se forem perguntas, eu respondo. Se forem comentários, eu escuto. Se eu quiser falar algo, eu falo. Mas raramente quero.

Eu pego um copo d’água e te ofereço outro. Você aceita.

E aquela conversa, aquela conversa que os outros dizem que é importante, que os padrões de comportamento dizem que é necessária, que as pesquisas mostram como efetiva para a saúde da relação, fica para mais tarde.  Ou para nunca. Porque a conversa, seja qual for, realmente não preciso ter com você. O que eu tenho com você não é para ser conversado. Não tem argumento, não tem perguntas e respostas, não tem utilidade, não tem começo,  nem meio-termo, nem finalmente.  Eu realmente não preciso, nem quero,  ter uma conversa com você.

Isso não quer dizer que não temos assunto. Tudo está sendo dito em cada movimento e sei bem que é depois do copo d’água que você vem me dar um beijo, o primeiro deles. Confessa então o dia difícil. Suspira. E me abraça.  Depois é mais silêncio,  lábios selados com selinhos e pronto: continuamos não conversando.  Os vizinhos agradecem. Aliás, se não fosse a música, às vezes alta, quase não existiríamos. Se há gritos, são internos, e só dizem respeito aos nossos mundos particulares. Nossas individualidades. Com você eu não quero palavras, quero presença. A sua presença no sofá, tomando água, deixando escapar uma ou duas palavras. É isso que conta. E mais: com a sua presença você acolhe meus gritos internos, mostra que tem audição supersônica. Eu tento fazer o mesmo.

Que os faladores continuem, que a os relacionamentos sejam discutidos, as notícias comentadas, que as palavras corram soltas como os retardatários da São Silvestre, excessivas como os laços de floricultura. Eu e você vamos ficar aqui, tácitos, na varanda ou na sala, quem sabe selecionando os anacrônicos CDs. Com um olhar você aprova, com um gesto eu escolho, e assim a gente decide o que vai e o que fica.

Reparou que de um jeito ou de outro, estamos conversados?

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Por Adriana Calabró

 

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