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A vida é um game? Fernando Fontes responde

Um menino tímido,  com uma imaginação mais do que fértil. Esse é o protagonista e narrador de Vida Game, novo livro da Adriana Calabró, idealizadora do site Palavra Criada. Fernando Fontes tem onze anos, faz doze durante a história, mas tem pensado muito nos treze, quando será tecnicamente um teen. O texto foi o vencedor do Concurso João de Barro, prestigiado prêmio oferecido pela cidade de Belo Horizonte, e tem o formato de um diário.

A autora, que teve formação em Publicidade e está se licenciando em Letras, já fez incursões no romance e no conto, e  estreia no gênero infanto-juvenil. “Ao observar os meus sobrinhos e as demais crianças que já conseguem entender sobre a sua própria maturidade, seus próprios limites, surgiu a vontade de dar voz a eles. Assim nasceu o Fernando Fontes, narrador do Vida Game”, diz Adriana que além de escritora é roteirista, dramaturga, publicitária e dá aulas de escrita criativa. Possui outras obras premiadas, como o conto Taciana, finalista no prêmio Off-Flip, o Projeto Marco Polo, vencedor da bolsa de criação literária do ProAc e o conto A lança e o dado, finalista no Prêmio Paulo Leminski.

As ilustrações são de Ângelo Abu, que vem diretamente de Minas Gerais para o dia do lançamento. ” O trabalho desse artista maravilhoso foi um presente. Ele recontou minha história por meio de imagens e fez um caderno de desenhos, separado do texto”, diz Adriana.

O Singularidades, instituição voltada à formação de professores, apoia a iniciativa e o lançamento será no dia 23 de outubro, segunda-feira, no vão central da Sede, na rua Deputado Lacerda Franco, 88, a partir das 19h30.

 

 

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taças sóbrias para humanos idem

Sejamos sóbrios

por Adriana Calabró

O ano vem acabando, e sendo 2016, podemos até falar em estado terminal. Aí um título assim aparece na timeline e dá ainda mais raiva. Sóbrios? Mas se a saída mais imediata está justamente nas taças de vinho, champanhe, de conhaque, nos whiskies puros, sem gelo. Calma. Não se altere. Não é disso que estamos falando. O assunto aqui tem mais a ver com uma sobriedade diferentona. Tem a ver com falarmos menos de ceia de Natal e mais das fomes internas. Pensarmos menos em presentes, gifts e mimos e descobrir mais possibilidades de realmente despertar o entusiasmo de alguém. Olha, o que tem de mulher que trocaria um kit maquiagem por um beijo experimental borra-batom. O que tem de homem que trocaria a gravata por um abraço impossível, daqueles que os braços ficam meio sem jeito e as batidas do coração se encontram mais ou menos no mesmo lugar. E os velhinhos? Quantos não trocariam as meias elásticas por alguma pequena ousadia? Eu não garanto, mas tenho quase certeza que até aquele celular ou tênis cobiçado pelos moleques pode vir na forma de uma aventura. Sei lá, pedalar antes da ceia. E já que voltamos ao assunto da ceia, sejamos sóbrios. Que tal algo simples e na quantidade exata, que não precise guardar no tupperware depois? Que tal uma música com alguém desafinado tocando violão? Que tal uma conversa sobre porque Jesus, que nasceu nesse dia, deu um piti no templo? Ou porque ele transformou água em vinho quando estava faltando brinde nas bodas de Canaã? Com certeza ele queria que a gente fosse sóbrio. Que pensasse antes no outro. Que a gente enchesse muitas taças em vez de pensar só na nossa. Que todo mundo ficasse bêbado de alegria e não só alguns. Há também a sobriedade de não falar bobagem só porque quer aparecer pro primo fazendo piada machista, racista, elitista. Ou aquela de não precisar competir com ninguém falando de conquistas que não fizeram ninguém feliz (nem você mesmo). Tem também aquela atitude delicadamente sóbria de pensar que tem muito sofrimento no mundo e, por isso mesmo, você tem que evitar qualquer grama a mais de egoísmo. Por exemplo, acertar a porcaria do mictório lembrando que alguém é contratado para limpar. Já pensou? Uma lista de desejos para o novo ano? 1 – Pensar no faxineiro que limpa o mictório, 2 – pensar no carro que fica preso quando eu paro em fila dupla, 3 – pensar na pessoa que pisa no cocô do meu cachorro. São sete desejos, não é? Então podia ser mais uns dois envolvendo generosidade e mais dois envolvendo autoconsciência. Espera, mas tanta sobriedade assim é chato. Legal é o show do Roberto, é a musiquinha do “hoje é um novo dia…”, é a viagem para a praia ou mesmo os benditos fogos que deixam uma sujeirada danada na areia. Calma. Não se preocupe, a sobriedade diferentona não tem a ver com ser triste, nem devagar, nem monótono. Tem a ver com ser humano. Com o tempo humano, os desejos humanos, as emoções humanas. Quem já se inebriou com a presença de outra pessoa, quem já se embebedou de tesão, quem já ficou turbado e perplexo com as conquistas de um grupo agindo junto sabe do que eu estou falando. Por isso eu digo, nesse fim de ano, e em todas as outras datas, ser um ser humano sóbrio é a maior viagem.

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Katy Perry

# papaiéfãdeKatyPerry

Por Marcos Calabró Orabona

Domingo à noite. Depois de um dia cheio, com esporte, caipirinha, pança cheia, e uma boa discussão familiar, fico sozinho na sala. Hoje não estou com disposição de ler nada. Cansado do lenga-lenga que tomou conta deste país. Crise, crise e crise. Hoje não.

Ligo a TV e, com o controle em punho para viajar em “zents” canais, coloco no Multishow para ver o Rock in Rio. Animação geral na equipe de produção. Titi, Didi, Dedé, todas ansiosos para o início da apresentação de Katy Perry, que parece será de arrombar. Katy quem?! Bem, para um pai de família chegando aos cinquenta, mesmo que antenado com a música tocada desde os sixties, achei estranha tanta excitação. Mas, deixo-me estar. Lembrei vagamente da molecada comentando sobre a cantora.

São onze da noite, o show começa. Pirotecnia e dança, como todos atualmente. Será mais uma cantora/atriz/modelo produzida por um gênio da criação do faz-de-conta? Mais um marqueteiro produtor de canções açucaradas para vender para os adolescentes?

Mais um João Santana da música? Deixo a crítica de lado e tento curtir. Depois de tudo que vejo neste país, com Cunhas e Renans da vida se aproveitando de suas posições para achincalhar a Nação, da sociedade assistindo ao leilão das instituições praticado pelo governo, da violência na porta de casa, da saúde sucateada, da educação moribunda, resolvo curtir a atração do festival sem pensar muito. Curiosidade.

Desligo a TV às 2 da matina. Embasbacado, energizado e feliz. Estado de torpor? Alegria efêmera? Não. Vejo com meus olhos uma apresentação muito bacana – para usar um termo da década de setenta. Com muita animação, sorriso no rosto, respeito ao público, boas músicas dançantes e ótima produção, viro fã de carteirinha da moça. Deu para sentir o quanto ela é inspirada pela centelha divina de se fazer o que ama. Pesquiso tudo sobre a artista na internet. Tem até descendência lusa por parte de mãe. Aquelas perninhas e tornozelos grossos não me enganavam. Já troquei ideias com as primas dos meus filhos que amam a Katy. Próximo show estarei lá com peruca azul e roupa colorida.

 

Marcos Calabró Orabona se formou em Odontologia, em Direito e, de forma diletante, na FETE (Faculdade dos que Entendem Tudo de Esportes).   Ainda tenta entender os gostos dos filhos, e de vez em quando, se surpreende positivamente. 

Palavra Criada cita a fonte da imagem: a foto da gravata foi encontrada em um site de compras de produtos criativos (é bem legal!). Divulgo aqui o link. Se houver algum problema é só dizer que a gente tira. 

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Anatomia de uma cidade – #Sampa462

O povo comenta, o povo reclama da megalópole. Diz que é dura, injusta, violenta. Diz tudo isso sem se dar conta que São Paulo, essa esfinge, é feita de gente. É feita de nós.

As veias são as vias. Aquelas onde os motoristas berram, ultrapassam, avançam limites. Ou, em um bom dia, liberam a passagem, controlam a pressão. Evitam entupimentos, infartos, infrações.

O sangue é pura transfusão. Tem negro, índio, europeu, asiático, sírio, judeu, nordestino, sulista, nortista, príncipe e plebeu. Um sangue multi-reagente, às vezes positivo, às vezes negativo, quase sempre universal.

O coração é quente, grande e não me venham falar do centro. O coração é espalhado em milhões de pedacinhos, em tudo quanto é canto, mosaico de gente quando resolve ser do bem (em vez de se dar bem).

Se falar do pulmão é citar o parque, esse ou aquele, tá pouco informado.  A respiração vem é de quem inspira. Ou transpira. De quem faz foto, síntese e, se precisar, inalação.

Tem outros órgãos vitais também. Bocas que cantam, ouvidos para ouvi-las e, como não?  As mãos que apalpam e acariciam. Umas por amor, outras por dinheiro, outras porque ainda estão tateando o que procuram.

A cidade é gente. E a gente somos nós.  A sujeira tá no rio e a clareza tá no riso. O estômago de um lado é bem tratado, do outro revirado.  São Paulo? É osso viver, mas a gente se segura. Esfola a pele, arranca os cabelos, fica de pé na fila e não perde a compostura.

 

Adriana Calabró é paulistana nascida na Av. Paulista, fala “meu”, gosta de feira, de parque e de Liberdade.

 

Agradecimento especial à Elaine Vilela e à página Paixões Paulistanas, que gentilmente postou esse texto na sua timeline. 

 

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A conversa que eu não preciso ter com você

Você chega, passa por mim, se esparrama no sofá. Eu só levanto o olho e uma parte da sobrancelha e continuo digitando. O que tem acontecido por causa do tal sistema Home Office é que eu nunca paro de trabalhar. Assim como todos os dias, você não me dá um beijo, nem um abraço e, se abre a boca, é para que escapem uma ou duas palavras. Se forem perguntas, eu respondo. Se forem comentários, eu escuto. Se eu quiser falar algo, eu falo. Mas raramente quero.

Eu pego um copo d’água e te ofereço outro. Você aceita.

E aquela conversa, aquela conversa que os outros dizem que é importante, que os padrões de comportamento dizem que é necessária, que as pesquisas mostram como efetiva para a saúde da relação, fica para mais tarde.  Ou para nunca. Porque a conversa, seja qual for, realmente não preciso ter com você. O que eu tenho com você não é para ser conversado. Não tem argumento, não tem perguntas e respostas, não tem utilidade, não tem começo,  nem meio-termo, nem finalmente.  Eu realmente não preciso, nem quero,  ter uma conversa com você.

Isso não quer dizer que não temos assunto. Tudo está sendo dito em cada movimento e sei bem que é depois do copo d’água que você vem me dar um beijo, o primeiro deles. Confessa então o dia difícil. Suspira. E me abraça.  Depois é mais silêncio,  lábios selados com selinhos e pronto: continuamos não conversando.  Os vizinhos agradecem. Aliás, se não fosse a música, às vezes alta, quase não existiríamos. Se há gritos, são internos, e só dizem respeito aos nossos mundos particulares. Nossas individualidades. Com você eu não quero palavras, quero presença. A sua presença no sofá, tomando água, deixando escapar uma ou duas palavras. É isso que conta. E mais: com a sua presença você acolhe meus gritos internos, mostra que tem audição supersônica. Eu tento fazer o mesmo.

Que os faladores continuem, que a os relacionamentos sejam discutidos, as notícias comentadas, que as palavras corram soltas como os retardatários da São Silvestre, excessivas como os laços de floricultura. Eu e você vamos ficar aqui, tácitos, na varanda ou na sala, quem sabe selecionando os anacrônicos CDs. Com um olhar você aprova, com um gesto eu escolho, e assim a gente decide o que vai e o que fica.

Reparou que de um jeito ou de outro, estamos conversados?

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Por Adriana Calabró

 

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