DEITADO

NUTRIÇÃO

Tem criança que come terra, outras, sabonete, eu tinha uma amiga que comia casquinha de parede. Dizem que é sinal de verme, isso de comer coisas estranhas. Não sei. Eu comia papel. Todos os meus blocos tinham uma pontinha faltando. Eu não sabia por que, era mais forte do que eu. Bastava abrir um caderno e começava o ritual, tirar a lasquinha, enfiar na boca. No estômago, a celulose encontrava o brigadeiro, o ovo cozido, a banana, um pouco de tristeza também, dor de palavras engolidas.

O tempo passou e eu comecei a colecionar papel de carta, em uma pasta de capa preta cheia de modelos, com envelope, sem envelope, com selinho complementar, com relevo. Os motivos, os mais variados, gato, barco, morango, estrela. Mas esses eu não comia. Eu os deixava descansar em um canto, feito pão fermentando. E a pasta engordava, crescia. Estranha relação, essa com o papel, e na casa de uma colega descobri o de parede. Um luxo, superfície tão bem vestida como a mãe dela, mas não me acolhia, como se não fosse feito para aquele propósito. Até se fosse para embrulhar uma casa para presente não seria daquele jeito, aliás, não seria aquela casa.

Depois, veio a aula de datilografia, e descobri os papéis destinados ao erro. Bem baratos, pardos, empilhados aos montes, vítimas em sacrifício para batermos neles com força. Asdfg Hjklm. Nunca consegui fazer os números sem olhar.  O dedo fino entrava no meio das teclas. Eu amassava rápido para a professora não ver. Papel duplamente torturado. Eram meados dos anos 80 e a escola chamava Ordem e Progresso. Imagina só, se eu dissesse para os meus sobrinhos que existia vida antes da tela. Não tão em ordem, mas até que começava algum progresso.

Estou falando tudo isso porque hoje eu acordei em um susto e descobri a resposta.  Voltei lá para o dia em que a professora reclamou da minha prova, não pela nota, mas porque os cantinhos estavam faltando. Claro. Eram os aperitivos. Os papeis comidos estavam preparando o caminho para o banquete. Hoje, eu como palavras, eu me farto delas, vou traçando o que vejo pela frente e preenchendo as centenas de folhas em branco um dia digeridas. Eu como palavras sem restrição, antes do almoço, depois do jantar, as minhas, as dos outros. Eu como até o que não deveria comer. E as mais saborosas, deixo para a sobremesa. Começo do canto para o meio e vou mastigando, bem devagar…

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A BELEZA DAS VÍSCERAS

A gente dá muito mole pro cérebro, acha que ele é o centro de tudo, uma espécie de torre de controle que manda no cabaré.  Mas quer saber? Cada vez acredito mais que o resto do corpo é que sabe das coisas. Até porque andaram descobrindo que nos intestinos têm um tantão de neurônios. E que o coração sabe de tudo que acontece frações de segundo antes da massa cinzenta. Hipóteses. Estudos. Resultados. Eu gosto. A ciência sempre foi investigativa então deixa eles investigarem, ué! Na pior das hipóteses, os mais diferentões vão ser boicotados como foram todos os que pensaram fora da caixa (tipo Nikola Tesla).  É um risco que se corre…

Mas quer ver uma coisa? Faz uma experiência. Quando você fala… “eu tô sentindo algo estranho”. Onde você coloca as mãos?

  1. Na barriga
  2. No peito
  3. Na cabeça

Aposto que foi A ou B, duvido que foi C.

E o que isso quer dizer? Nada. No máximo a constatação de que os seus instintos vão direto para as vísceras.

E aí eu paro pra contar uma história. Eu e a Alana Trauczynski nos conhecemos porque fazíamos parte de um mesmo grupo de estudos, com pessoas de todo o Brasil. Ela lá no Sul e eu em Sampa. Quando fui dar um curso em Florianópolis, ela achou que eu tinha algo a dizer e quis me conhecer pessoalmente. Eu da minha parte, achei ela uma potência e fiquei louca para ler o seu livro, Recalculando a Rota, que em breve ia ser lançado. Foi assim, no instinto, que algo nos conectou de verdade.

Depois lançamos um curso juntas – A história que você precisa contar – focado em textos autobiográficos. Foi uma experiência intensa e a maioria dos feedbacks dizia que, como facilitadoras, éramos complementares. Ou seja, que a gente oferecia um conteúdo completo justamente por sermos diferentes nas abordagens e no modo de apresentar, ampliando o olhar sobre o assunto. Achei o melhor elogio possível para um trabalho de dupla!

Agora, surgiu outra oportunidade de nos juntarmos. Nesses tempos incertos, atrapalhados, a gente sentiu que as emoções estão pelas tampas. Como escritoras e observadoras dessa matéria-prima chamada gente, deu vontade de incentivar o pessoal a escrever de novo.  Dessa vez, com as vísceras, partindo das emoções.

Lançamos o Viscerall – Das emoções à palavra potente. Fizemos as duas primeiras horas gratuitas desse workshop, com a presença de centenas de pessoas, e agora estamos oferecendo a versão Viscerall Full On, com 4 horas de curso e muitos exercícios práticos.

A cabeça participa? Claro, né? Como se distanciar do que nos faz Homo Sapiens Sapiens? Mas sem regime ditatorial. O cérebro apenas faz parte, como outro órgão qualquer (já estou aqui imaginando ele: “você sabe com quem está falando? Deixa eu entrar ne’saporra de link!”).

Lembrei agora que vi um filme em que os antigos liam a sorte nas vísceras. Talvez tivesse algum sentido porque, no meio da confusão e da viscosidade, tem uma baita magia nos órgãos. A força de um pulmão, a simetria de um par de rins, a elegância de um tecido, a beleza de um ventrículo cardíaco. E mais ainda, podemos ver o padrão. A mesma disposição dos elementos, os mesmos tons de vermelho, branco, cor de vinho, tudo misturado.

Sim. Pelo menos do lado de dentro, somos bem parecidos. Praticamente iguais.

 

Por  @adriana_calabro_orabona

Quer se inscrever no curso? Clica aqui!

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STILL LIFE / REPORTER'S DESK WITH TYPEWRITER & BOX CAMERA

JABAZINHOS DE UMA NON-INFLUENCER

Eu não sou nativa digital. Aliás, nem a digital do indicador eu tenho, perdi ao longo de décadas escrevendo em teclados variados, incluindo máquinas de escrever.  Por conta disso, às vezes o caixa eletrônico nega meu próprio dinheiro, a portaria virtual do meu prédio não me deixa entrar. Parece que esses leitores contemporâneos fazem questão de reforçar meu DNA analógico. Influenciadora, também não sou, não. Até tenho seguidores queridos no Instagram, alguns amigos e colegas bacanas no Facebook, mas são só conversas “de post” (as antigas conversas “de bar”), não consigo influenciar unzinho sequer a fazer o que eu quero!

Sendo assim, assumindo minha irrelevância virtual, recorro ao jabá afetivo. Uma vez que esse site é meu, então aqui eu coloco tudo o que eu quero, sem qualquer expectativa. Meus serviços prediletos! E olha, juro que a deliberação foi só com o board do Palavra Criada (eu e eu mesma), não rolou nenhum “recebidos”, “unboxing”, nem nada parecido. Como não sou influenciadora, espero que os membros da minha lista também não fiquem chateados se o fato de estarem aqui  não render muitos like a mais.

Foi o que se pode arrumar para o momento. Meu amor incondicional!

Então vamos a ela, a lista:

  • RESTAURANTE N.Ó.I.S

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Gente, pensa em um lugar único. Eles conseguem misturar coisas improváveis e tudo fica delicioso. Abacaxi com cogumelo, Banana da terra com feijão vermelho, Abacate com pesto, nhoque com legumes e PANCs. São uns meninos super bacanas, com experiência de cozinha e um tempero maravilhoso. A sigla N.Ó.I.S é por causa dos seus lemas: Natural, Orgânico, Inclusivo e Sustentável. Como não amar? Outro dia pedi um bolo de cumaru com bananada e calda de chocolate que me levou aos céus (Depois voltei pra a faxina, mas tudo bem).

Jabazito contact: @noiscozinha   Retirada com desconto ou também através do iFood, Rappi, Ubereats – n.o.i.s. Cozinha e Venda

 

  • VANESSA, A HEROÍNA

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Não é que eu seja totalmente sedentária, gosto de andar, dançar, mas para mim musculação sempre foi tortura, coisa de gente que tem uma quedinha pelo sadomasô. Mas eis que surge ela, a amazona Vanessa, que, não sei bem como, está me conduzindo por meses de musculação EM PLENA PANDEMIA! Até agora não entendi como ela me faz, pela telinha do celular, transformar a sala de estar em ginásio e uma sacolinha com 2 quilos de arroz e 2 quilos de feijão em peso pra fazer a remada alta! Mas o fato é que está rolando. Enfim, Vanessa é “a mina”. E se meu braço voltou a ter formato de braço, é por conta dela.

Jabazito contact: @vmmoreira

 

  • HORTELÃ

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Brinquedo educativo todo mundo conhece. Mas alguém conhece lojista educativa? Uma mulher que inspira as pessoas a serem amáveis, divertidas, esperançosas? Bom, essa é a Patrícia, dona da Hortelã. Aí é assim: eu peço uma dica para dar de presente para o meu afilhado e o que ela faz? Manda a lista por whatsapp, com fotos e vídeos, explicando por que cada um é bacana para aquela idade. E na hora de entregar, faz uma embalagem customizada com um desenho meu e do meu afilhado. Ah, fala sério! O menino nem queria abrir o presente de tão lindo que ficou. Os pais também ficaram encantados.  Quando a dona da loja é fada, isso é fácil.

Jabazito contact: @hortela_brinquedos_educativos

 

  • FERNANDA

fernanda

Como já falei, sou mega low profile nas redes, mas como hoje em dia tudo acontece nelas, achei que precisava melhorar minha apresentação pessoal. Vídeos e tals. A Fernanda Sanches é atriz, palestrante, professora de expressão oral e colei nela para ver se eu perdia um pouco a vergonha  e melhorava meu jeito de lidar com a câmera. Bom, a conversa foi tão boa que, além de trabalhar minha expressão no vídeo, falamos de arte, de textos, de dramaturgia.  Ela tem clientes executivos também, e, com eles, fala de reuniões, de palestras, de apresentações de projeto. É versatilidade que chama? Enfim, seja pelo talento em dar aula, seja pela inteligência, ela entrou pro jabálist!

Jabazito contact: @aprendaafalarempublico

 

  • MANDARINA

mandarina

Não sou muito de séries. Sou vintage e o que gosto mesmo é de ler um bom livro. E a livraria Mandarina, que inaugurou no ano passado em uma rua de Pinheiros é minha fornecedora predileta. As donas, Daniela Amendola e Roberta Paixão  estão no turbo durante a quarentena para continuarem positivas e operantes.  Pelo preço de um iFood você pede livros incríveis pra alimentar a alma.

Jabazito contact: @livraria_mandarina

 

Quer saber sobre meu próximo curso de escrita(auto-jabá)? Clique aqui.

Quer mais dicas de uma non-influencer? Escreva nos comentários.

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livro

Primeiro livro da série Benjamin Ross reúne fantasia, mistério e ação

Por Lais Barros Martins

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Foram seis anos de trabalho até concluir as mais de 800 páginas de uma história que traz um novo olhar ao eterno embate entre Luz e Sombras. Escrito por Kalil & Basker, o livro de ficção Benjamin Ross e o Bracelete de Tonåring tem na trama espíritos, alquimia, mistério e muita fantasia. Primeiro livro da saga que deve ainda contar com quatro outros volumes, já em produção.

A história se passa em uma vila da Inglaterra dos anos 1980 e traz os personagens da família Ross (Richard, Jasper e sua esposa Emily), as misteriosas Arianna King e Elizabeht Tate, espíritos Aliados vindos de colônias distantes, que se reúnem na batalha final “quando alguns segredos da Profecia, ponto-chave da trama, virão à tona”, revelam os autores.

 

SOBRE OS AUTORES

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Nuria Basker

Pseudônimo de Adriana Calabró, jornalista, escritora e roteirista premiada nas áreas de comunicação (Best of Bates International, Clube de Criação) e literatura (Selo Puc/Unesco Melhores livros de 2017, ProAc – bolsa de literatura, Prêmio Off-Flip – finalista, Prêmio João de Barro – 1º lugar,  Prêmio Paulo Leminski – finalista, Prêmio Salão de Humor – finalista microconto) e cinema (Festival Nanometragem de Cinema – finalista). Idealizou e atua como facilitadora da Oficina de Escrita Palavra Criada, desenvolve projetos de Coaching de escrita para grupos e empresas. www.palavracriada.com.br @palavra-criada

José Eduardo Kalil

Também conhecido como ZEK, é administrador de empresas, cantor e escritor. Atualmente fazendo especialização em  música, em Los Angeles. Embora já use as palavras para suas composições musicais, Benjamin Ross e o Bracelete de Tonåring é seu primeiro projeto de romance literário. @ZEK_sounds

 

CRIANDO UNIVERSOS IMAGINÁRIOS

A parceria literária para criar um livro de ficção entre dois autores de gerações e estilos diferentes acabou se tornando uma saga na vida real. O jovem José Eduardo Kalil mostrou o projeto a Nuria Basker, pseudônimo da escritora Adriana Calabró, e foi prontamente acolhido por ela. “O Kalil é muito criativo e obstinado, além de escrever bem. Adorei a sinopse logo de cara. Quando ele me convidou para participar do projeto como coautora, eu vibrei”, diz Basker. O fato de ter em seu currículo livros de outros estilos não foi uma barreira para a premiada escritora. “Eu adoro inventar realidades, e aqui eu poderia até envolver pessoas mortas e uma linhagem de mulheres alquimistas. Como negar o desafio?”. Para Kalil, “a experiência de escrever com a Nuria – uma escritora que consegue mesclar muito bem a técnica e a subjetividade dos sentimentos que preenchem as entrelinhas – foi uma grande lição, que vou levar para o resto da vida.” Embora a editora Laranja Original se destaque pela publicação de poesia e outros gêneros literários, resolveu apostar na dupla: “Estamos mais acostumados a publicar poesia, crônicas e contos, mas resolvemos aproveitar esta oportunidade de oferecer uma saga cheia de mistério aos nossos leitores, na certeza de que se trata de um excelente trabalho”, diz o editor Filipe Moreau.

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SOBRE A EDITORA

laranja

A editora Laranja Original destaca-se pela publicação de poesia, mas traz em seu catálogo outros gêneros de ficção literária, traduções, trabalhos jornalísticos, acadêmicos, de artes plásticas, música, ilustração, fotografia – e já são mais de 45 títulos publicados. Cada projeto recebe extrema dedicação, com o investimento em equipes competentes para trabalhar os originais e lançar materiais de qualidade, em forma e conteúdo.

 

Imprensa

Laís Barros Martins

lbm.laisbarrosmartins@gmail.com

(11) 96831.6356

 

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Fotos da Bienal – Luis Bahú

O fotógrafo Luis Bahú caprichou para retratar os eventos da Bienal de São Paulo. Adoramos o resultado e postamos aqui algumas imagens! Monja Cohen, Maurício de Sousa, o Menino Maluquinho e muitas outras atrações. E você? Quais foram as suas impressões da desse que é um dos maiores eventos literários do Brasil e do mundo?

 

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Vida Game ganha o Selo Cátedra PUC/RJ- UNESCO

A SELEÇÃO CÁTEDRA 10 indica obras com valor literário, plástico e editorial, considerando temas e gêneros diversos, sem designação por categorias ou faixas etárias, mas atenta, sobretudo, à qualidade artística do diálogo texto/imagem, que torna o livro infantil e juvenil um artefato original indispensável para arte-educação.
Vida Game, de Adriana Calabró, com ilustração de Ângelo Abu, foi um dos contemplados. A editora é a Peirópolis, uma das mais representativas em livros infanto-juvenis.

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caio eduardo monteiro da silva

Conexões

Por Adriana Calabró

Essa semana tive o celular furtado e peguei o do meu sobrinho: um aparelho-dinossauro da raça Obsolescencius Programmatus  e, portanto, sem qualquer chance de receber o Uber, o Waze ou afins. Só o Whatsapp, e ainda assim, travando o tempo todo. Tudo bem, eu ainda tinha o Facebook no computador. Ufa. Foi lá que eu pude ver o anúncio de uma peça de teatro, despontando na minha timeline. Sim, uma analógica e presencial apresentação dramatúrgica, feita em um palco de verdade, com poltronas, bilheteria, essas coisas …

O post dizia:  “Única apresentação. Com Clovys Torres”. Confesso que nem me preocupei com a sinopse, nem com o nome da peça e fui correndo para o link de compra. Porque da última vez que tinha visto esse ator em cena eu dei graças a todos os deuses do teatro por ele existir e fiquei impactada por semanas.  Clovys Torres, o cara.

Peguei o carro e agradeci por me lembrar de como se chegava naquela rua (sem Waze, lembra?). Agradeci também que o marido emprestou o carro porque o meu estava no conserto (sem Uber, lembra?).  No hall, encontrei uma amiga, conversei sobre teatro e arte, sem nem olhar o celular (Whats travando, lembra?) e entrei… Penetrei naquele ambiente mágico… escuro… poltronas  antigas… palco tradicional… pozinho fino sendo revelado pelo holofote que já iluminava o cenário.  A vida vintage. A vida como ela era.

Depois de passar pela cortina aveludada da porta, procurei meu lugar, sentei e não precisei esperar muito. Lá veio ele, o Clovys. Quer dizer, não só o Clovys, mas o universo que ele carrega dentro de si. Minutos antes eu tinha me lembrado do nome da peça, “Me dá tua mão”, e como se fosse um chamado, me preparei para obedecer, para ser conduzida.  Ele mesmo, sem qualquer cerimônia, anunciou que a peça ia começar e pediu para desligarem os celulares. (O meu, coitado, nem precisou, já estava fora de área.)

E tudo começou prosaicamente, como uma conversa.  Narrador e personagem aos poucos se apresentando ao público. Ambos personificados pelo mesmo corpo.  Depois veio a mulher do personagem, o pai, a mãe, a amante, os cachorros, os visitantes daquela casa imaginária… Todos trazidos à cena pelo mesmo corpo. Um corpo preparado, um corpo de ator.  A narrativa ia aos poucos se revelando, bem tecida, convidando os espectadores a entenderem a lógica daquele monólogo com tantas faces. E eles entendiam. E se deixavam levar pela mão, e riam, e choravam. Quer dizer, não sei se choravam, mas eu chorei.

Contar do enredo, ou seja, da história de um casal que se une de uma forma insólita, depois muda de região, constrói sua rotina, passa por tragédias familiares, envelhece junto, pode até ser um caminho para se falar da peça. Mas é pouco. Não é aí que está a essência do espetáculo. São os silêncios preenchidos, os movimentos bruscos, as sutilezas da dramaturgia, os objetos carregados de significação, os sons que dissolvem a quarta parede, são eles que fazem da apresentação uma experiência forte.  E não estou falando que a peça é experimental, ou distanciada de uma narrativa com começo, meio e fim. Ao contrário, o texto escrito por Clovys (sim, o cara) e dirigido (“desconstruído”) por Amir Haddad nos faz criar a imagem dos personagens,  imaginar a trajetória deles, as dores e alegrias diárias, as vivências tão leves ou dramáticas como a de qualquer outra pessoa.

Fiquei o tempo todo concentrada na história, mas confesso que no meio da peça minha mente viajante deu uma passadinha na Grécia antiga, para pensar no conceito de catarse. Porque se a minha face estava molhada e aquela dor no palco não era exatamente minha, por que eu estava sofrendo? Ou pelo quê? Pela dor do mundo? Pela dor que poderia ser minha? Sim, a catarse do teatro existe e é prima da empatia. Que loucura. Então sofrendo a dor que não reconheço em mim, por meio de personagens que não existem eu posso me descobrir humana?

É isso. Deu match!

Descobrir-se humano. Taí um aplicativo que veio embarcado nas pessoas, mas nem sempre está no modo ON, não é?  O teatro, aqui bem representado por “Me dá tua mão”, assim como a dança, os saraus, a música e outras performances ao vivo, são capazes de nos desautomatizar e trazer o que o mundo digital ainda não conseguiu: a energia, o suor, a presença do artista bem próximos a você.

Tão vintage e tão necessária, essa entrega energética (e catártica) sobrevive.  Nos palcos e nos corações de quem está interessado em se conectar com ela.

Imagem: Caio Eduardo Monteiro da Silva

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