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O dia em que entrei em uma bolha de sentido

Por Adriana Calabró

Nos dias de hoje, uma das tarefas mais difíceis para pessoas simpáticas à lucidez é encontrar coerência nas atitudes, palavras e pressupostos espalhados aos quatro ventos em redes sociais e veículos de comunicação.

Há inúmeros exemplos em que discurso e ação parecem vir de planetas diferentes.

E quando dizemos lucidez não é, de forma alguma, como um sinônimo de superioridade, conhecimento pleno, ou mesmo de “estar com a razão”. É mais simples.  Apenas a aptidão de buscar o quadro geral das coisas de uma forma clara. Sem excesso de paixões, sem opiniões arraigadas, tanto em termos individuais como coletivos. Para o lúcido, os erros, os acertos, os defeitos, as contradições, tudo pode ter lugar. Não é preciso praticar estelionato nem com problemas, nem com soluções. O lúcido quer ouvir, ver, avaliar e depois julgar, o que acaba por afastar naturalmente o binarismo.

Claro que o homem e a mulher lúcidos incomodam muito. Eles raramente buscam o caminho mais simples, ou mais óbvio. São aqueles que apontam “furos no sistema” até mesmo entre seus correligionários, são aqueles que ousam dizer a verdade em algumas situações e calam em outras, por cálculo aproximado das consequências.

Há, porém, um ambiente onde a lucidez é uma característica bastante valorizada e, até mesmo invejada: a área da pesquisa. Ali, problematizar, entender o panorama, buscar subtextos e, principalmente, uma linha coerente de pensamento são pré-requisitos.  Não que em tal recorte não esteja presente o grande vilão, o ego. Está. E quando aparece, também causa danos e obscurecimentos que botam a perder qualquer raciocínio privilegiado.

Mas esse não é o caso do que vamos contar aqui.

Recentemente, pude acompanhar um momento de lucidez na defesa de uma tese de doutorado. O tema era educação, com um viés bastante interessante da linguística aplicada.  No entanto, o que presenciei naquela sala foi algo mais próximo a uma “performance” se eu levar em conta as sensações e reflexões que causaram em mim.

Explico.

Quando vemos pessoas apaixonadas pelo que fazem em ação, seja apresentando 300 páginas de um estudo aprofundado, seja lendo criticamente tal calhamaço com a intenção de questioná-lo de forma útil, cria-se uma atmosfera que nos redime dos excessos superficiais de nossa era. A noção de propósito se expande.

O doutorando, aprovado com louvor, certamente foi lúcido ao vibrar com o resultado de seu trabalho. Mas ainda mais lúcido ao se manter na posição de eterno pesquisador. A banca, exigente em suas demandas, foi lúcida ao cumprir os protocolos de um ambiente formal, mas ainda mais lúcida ao mesclar humanidade e academicismo.

A tese teve a ousadia de aproximar o pensamento de três teóricos e os colocar em diálogo. Trouxe o melhor de cada mundo para polir a lente de aumento e assim olhar para as particularidades da educação. Vale dizer que coloco o conteúdo abordado na tese em termos gerais por minha incapacidade de reproduzir adequadamente o conteúdo sofisticado que ouvi. Uma questão de humildade.

No entanto, posso abordar com tranquilidade uma temática que domino perfeitamente. A reação em cadeia que acontece na minha mente, no meu corpo, quando o sentido se faz presente. Quando se abre um portal para o conhecimento das questões humanas que me inspira, me faz ter vontade de criar, de escrever textões, de ser uma pessoa melhor, de tentar ser mais lúcida.

Isso acontece em alguns locais, em alguns momentos, e procuro jamais desperdiçá-los. Pode ser na defesa de uma tese, mas também na voz do repentista que me aborda, no contato com o moleque de rua que, com maestria, me desafia em meus preconceitos ou, ainda, nas surpresas que consigo pregar em mim mesma quando estou minimamente descondicionada.

O fato é que, quando entro em uma bolha de sentido, me sinto mais livre, menos subjugada por tudo aquilo que me desagrada, as manobras aplicadas, os egoísmos institucionalizados, os discursos impostos, os absurdos propostos.  Quando estou nesse cluster de significância, me sinto menos oprimida por gente pequena que vive em seus bunkers de segurança máxima. Gente que não lê, não ama, não admite divergências, não entrega, não doa, não cria, não tem interesse em aprender ou evoluir e se rende à massificação, sub-utilizando o que há de melhor no homo sapiens sapiens.

Quando estou na bolha de sentido, a realidade parece possível e me vejo comandada pela minha consciência em estado pulsante.

Passo, então, a ter voz.

 Agradecimentos à professora Jordana Thadei, que me convidou para a defesa e ao professor Adolfo Tanzi Neto, que eu não conhecia até o dia desta “bolha”, mas que passei a admirar.

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