taças sóbrias para humanos idem

Sejamos sóbrios

por Adriana Calabró

O ano vem acabando, e sendo 2016, podemos até falar em estado terminal. Aí um título assim aparece na timeline e dá ainda mais raiva. Sóbrios? Mas se a saída mais imediata está justamente nas taças de vinho, champanhe, de conhaque, nos whiskies puros, sem gelo. Calma. Não se altere. Não é disso que estamos falando. O assunto aqui tem mais a ver com uma sobriedade diferentona. Tem a ver com falarmos menos de ceia de Natal e mais das fomes internas. Pensarmos menos em presentes, gifts e mimos e descobrir mais possibilidades de realmente despertar o entusiasmo de alguém. Olha, o que tem de mulher que trocaria um kit maquiagem por um beijo experimental borra-batom. O que tem de homem que trocaria a gravata por um abraço impossível, daqueles que os braços ficam meio sem jeito e as batidas do coração se encontram mais ou menos no mesmo lugar. E os velhinhos? Quantos não trocariam as meias elásticas por alguma pequena ousadia? Eu não garanto, mas tenho quase certeza que até aquele celular ou tênis cobiçado pelos moleques pode vir na forma de uma aventura. Sei lá, pedalar antes da ceia. E já que voltamos ao assunto da ceia, sejamos sóbrios. Que tal algo simples e na quantidade exata, que não precise guardar no tupperware depois? Que tal uma música com alguém desafinado tocando violão? Que tal uma conversa sobre porque Jesus, que nasceu nesse dia, deu um piti no templo? Ou porque ele transformou água em vinho quando estava faltando brinde nas bodas de Canaã? Com certeza ele queria que a gente fosse sóbrio. Que pensasse antes no outro. Que a gente enchesse muitas taças em vez de pensar só na nossa. Que todo mundo ficasse bêbado de alegria e não só alguns. Há também a sobriedade de não falar bobagem só porque quer aparecer pro primo fazendo piada machista, racista, elitista. Ou aquela de não precisar competir com ninguém falando de conquistas que não fizeram ninguém feliz (nem você mesmo). Tem também aquela atitude delicadamente sóbria de pensar que tem muito sofrimento no mundo e, por isso mesmo, você tem que evitar qualquer grama a mais de egoísmo. Por exemplo, acertar a porcaria do mictório lembrando que alguém é contratado para limpar. Já pensou? Uma lista de desejos para o novo ano? 1 – Pensar no faxineiro que limpa o mictório, 2 – pensar no carro que fica preso quando eu paro em fila dupla, 3 – pensar na pessoa que pisa no cocô do meu cachorro. São sete desejos, não é? Então podia ser mais uns dois envolvendo generosidade e mais dois envolvendo autoconsciência. Espera, mas tanta sobriedade assim é chato. Legal é o show do Roberto, é a musiquinha do “hoje é um novo dia…”, é a viagem para a praia ou mesmo os benditos fogos que deixam uma sujeirada danada na areia. Calma. Não se preocupe, a sobriedade diferentona não tem a ver com ser triste, nem devagar, nem monótono. Tem a ver com ser humano. Com o tempo humano, os desejos humanos, as emoções humanas. Quem já se inebriou com a presença de outra pessoa, quem já se embebedou de tesão, quem já ficou turbado e perplexo com as conquistas de um grupo agindo junto sabe do que eu estou falando. Por isso eu digo, nesse fim de ano, e em todas as outras datas, ser um ser humano sóbrio é a maior viagem.

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