pamonha_sim

O carro da pamonha que habita em mim saúda o carro da pamonha que habita em você.

Entre os desbravadores, estão os portugueses nas suas caravelas, os astronautas em suas engenhocas e ele, o destemido caminhão vindo do interior, marcando presença nas ruas do bairro paulistano.  Ultrapassando em número de vendas os restaurantes cool de portas fechadas, a voz que sai do megafone instalado no capô brada: pamonha, pamonha, pamonha. A gravação garante que é um tiozinho do interior, de bochechas rosadas e o “r” dançando no céu da boca. Mas quem se aventura a descer pra comprar, no débito ou crédito, se depara com um rapaz desinteressante, com fone de ouvido e tênis de marca, celular em uma mão, maquininha na outra, vendendo os produtos com um quê de industrializados. Quem poderá julgar? Fico pensando se não somos exatamente isso em nossas comunicações diárias. Carros da Pamonha. A gente vocifera, a gente anuncia nossas realidades como sendo as mais genuínas, as mais essenciais. Vendemos nosso discurso como se estivéssemos arrasando, mostrando a verdade de quem somos. Mas, não. A receita não é original e está distante das sutilezas que poderiam evocar . A gente apenas impõe nossa caixa de som, comunicando aos outros, com falsa intimidade, que chegamos. Que estamos na porta do prédio e a gritaria é para falar o quão bom é o produto que acho que sou. Nas redes sociais isso fica claro, e mais ainda nas mensagens de  voz do whatsapp , aquelas de uma via só. Temos medo do diálogo, então é melhor só falar, sem dar chance de interrupção ou contra-argumento. Se vier, será na próxima mensagem sonora, com tempo para gente se armar de novo. Temos medo das respostas ao vivo, sem playback. Somos pamonha, pamonha, pamonha.  Não vou dizer que lá na terra fértil que também nos habita, não exista, sim, um milharal com espigas gordinhas, colhidas pelo tal tio de bochechas rosadas, trabalhadas no tacho por uma senhora sabida. Quem sabe uma contadora de histórias? Existe, sim, temos essa conexão com o nosso maná primordial. Mas será que estamos dispostos?  Olha, carros de som são irritantes, foguetes fazem um barulhão dos infernos,  e caravelas, bem… já sabemos no que deu. Então vou tentar. Vou ver se dia desses eu compro um milho da fazenda, ralo devagar, preparo o purê, adiciono o que for preciso, açúcar, coco (sim, fica bom),transformo em creme, coloco às colheradas nas cascas do sabugo e amarro com barbante.  Depois cozinho e espero ficar pronto. É uma experiência. Vou ver se consigo fazer a pamonha no tempo da pamonha e oferecer para o povo aqui de casa, quase sem palavras. Coloco no prato e entrego. Depois, desço e ofereço outra ao porteiro (ele está farto do carro da pamonha). Com ele, talvez seja necessária um pequeno diálogo, “aceita uma?”, mas vou tentar falar bem baixo. Sem espalhafato. Puro creme do milho.

Adriana Calabró

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