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Por que Frida?

Não olhe agora, mas tem um punhado de rosas, um macaquinho e um útero cortado olhando para você.  Não é uma exposição da Frida Kahlo, é a superfície de um espelho que foi colocado na sua frente e, que, neste exato momento, espera interação.

É preciso falar de outras coisas também, de instintos, de ferocidade, de sobrevivência, mas não de bestialidade. Você já aguentou demais. Tem aguentado demais. Melhor falar de Frida. E das mulheres. E do momento em que estamos tão expostas que fomos expulsas do museu por atentado ao pudor.  Agora somos uma exposição ao ar livre.

E falar da Frida por quê? Porque ela virou cool? Porque seus lábios cerrados e olhos bem recobertos ilustram cadernos, agendas, mochilas e muitas manifestações feministas? Ou será porque ela é uma das maiores representantes da arte latino-americana? Tudo isso. Ou nada disso… talvez ela não aprovaria.

Nós, as mulheres do pós-tudo, temos visto passar vertiginosamente os dois últimos dígitos do milênio (2015, 2016? Nem sabemos mais). Ao mesmo tempo, queremos mostrar ao mundo nossos talentos (como Frida), queremos experimentar nossa sexualidade (como Frida), queremos amar e ser amadas (como Frida). Mas espera, queremos tais obviedades, mas não queremos sofrer como Frida, certo? Afinal uma lança perpassou seu sexo, um amor algoz lancetou seu coração, um corpo mutilado impediu seus desejos.  Não. Não precisamos mais da via sacra. Não queremos nenhum soldado romano nos oprimindo. Ela, nossa cordeiro de Deus(existe cordeiro no feminino?),  já fez o caminho. Como um cristo de saias bordadas, mostrou as nossas chagas, o nosso corpo crucificado, ressuscitado pela arte. Agora ela olha para nós bem de frente dizendo: “eu, mulher, latino-americana, passei por racismo, traição, sexismo, preconceito e ainda assim morri leoa, morri por vós. Eu as liberto. Eu vos dou a minha chama.”

Se falo de Frida é porque a vejo como símbolo. E como todo símbolo, ela se dirige a todos e a cada um. Mostra o útero cortado, a rosa e o macaco dentro de nós. Mostra a força avassaladora que vai além de qualquer sofrimento, além de qualquer padrão. Dizem que até no crematório ela fez a sua última instalação artística, com cabelos em chamas como girassóis. Haja pulsação.

Olhando em um ponto, bem no meio da sobrancelha de Frida Kahlo podemos enxergar a nós mesmas de todos os ângulos, com buço, roupas típicas, feridas, desnudamentos, rendas, chagas e flores. Uma mescla de abstrações e concretudes que pode explicar o desejo da artista de “nunca mais voltar”. Ou se preferirem, a sua vocação de ficar para sempre.

Por Adriana Calabró

Frida de barriga para baixo, por Nickolas Muray, 1946 _Museu Frida Kahlo

foto: Nickolas Muray, 1946 – Museu Frida Kahlo

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